
rodovia presidente dutra
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ele havia visto a felicidade.
foi assim que tudo terminou:
a certeza de que havia visto a felicidade.
tinha se encontrado com ela.
tinha estado perto.
tinha se aproximado
– aos poucos –
e sempre
até se colidirem
em órbitas distintas,
interligadas
e imensas.
e, então, o asfalto.
observava os postes vazarem a imensidão da pista e tinha medo de estar cada vez mais próximo de seu próprio e impenetrável frio. medo, de repente, de ter novamente o coração cheio de pequenos fragmentos de gelo, neste caminho de volta para um céu cinza cheio de pássaros negros.
com o tempo,
ele teria muitos motivos para chorar,
mas principalmente este:
solidão.
ele procuraria, outra vez, palavras cordiais em rotas matinais extensas. tentaria, sem sucesso, algumas vitórias imaginárias. ele estaria perdido, embora rodeado de troféus.
mas agora,
com os olhos vidrados
em uma imensa estrada
perdendo–se
entre o horizonte
e as montanhas,
apenas rumina
uma verdade apocalíptica:
ele havia visto a felicidade.
uma estúpida
e irremediável coincidência.
então,
os dois choravam no carro silenciosos. não haveria palavra a ser dita. os dois chorariam eternamente enquanto houvesse estrada. era um silêncio constrangedor. era uma agonia. e ele tinha vontade de dizer que tudo ficaria bem.
ele até perguntaria
se era isso mesmo:
se ficaria tudo bem.
se chegaria a passar.
a cicatrizar.
pois ver a felicidade assim tão de perto abre feridas corrosivas e expõe ossos, órgãos e mentiras, como grãos de pérola dentro de um corpo dilacerado.
enquanto isso:
entre postes
e caminhões de fruta
na beirada da calçada
entre carros
que seguiam a mesma direção
e gente que ficava
cada vez mais distante
entre aves
e animais selvagens
entre rodas,
calotas,
braços
e batuques
na lataria,
entre ex–combatentes,
ex–esposas
e ex–bailarinos do bolshoi,
eles choravam
e ouviam as mesmas canções
estúpidas de sempre.
em repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição e repetição,
como as marcas das rodas.
e os dois sentiriam
essa tímida e fria corrente de vento
entrando pela janela
secando tudo:
a começar pelas lágrimas.
esse recente vento de inverno.
é isso que acontece
quando a felicidade vai embora.